Este é o blog do Adote um Professor, o programa-raiz da União das Árvores (123s), ONG fundada no Rio de Janeiro em 2006. Aqui publicamos relatórios, projetos e sementes para uma Escola Ecológica. Conheça a nossa missão.


2009-10-05

Reflexões com corpo & alma: experiências através do corpoECOlogia

Por Deborah Castor *



Nos meses de agosto e setembro de 2009, tive o prazer de acompanhar as atividades do projeto corpoECOlogia, na Creche Patronato Operário da Gávea, no Rio de Janeiro. Mais especificamente, estive ao lado da facilitadora Manuela Berardo, com a qual dividi momentos de grande riqueza. Primeiramente, com o olhar de psicóloga (minha profissão), pude perceber o cuidado e carinho com que a Manuela conduzia as aulas e as relações com a direção e funcionários da instituição. Chamou-me a atenção a maneira com que a facilitadora preocupa-se em fazer um intercâmbio entre os alunos, os pais e o corpo docente da escola, mostrando-se consciente da verdadeira proposta da ecologia, a qualidade das relações entre as partes que compõem o todo.

Assim, fico feliz em perceber que a ecologia é abordada através dos temas relacionados ao meio-ambiente e a relação do homem com a natureza, o olhar para si através da descoberta dos movimentos do próprio corpo, e o olhar para o outro (percebendo as descobertas feitas pelos colegas, o aluno acaba imitando seu amigo).

Tenho aprendido muito sobre o ritmo real das crianças, que se encontram marcadas pelos ambientes que frequentam, seja a escola, a própria família ou a sua comunidade. Os olhares inquietos, o corpo pedindo para se expressar e as vozes procurando um espaço para serem ouvidas são marcas da vivência em espaços que não possibilitam a plenitude do vir a ser do ser humano. Os risos e a alegria de poder se expressar, o encontrar-se a partir do outro, as mãos que fazem carinho e as cabeças que se confortam num colo disponível... também devem ser objetos de reflexão para a compreensão do todo que se revela.

Na complexidade dessas forças que atravessam a realidade, o presente pede um fluxo sempre pulsante, com que Manuela sabe muito bem como lidar. Sempre com a abertura de um aprendiz e um olhar que descobre a cada momento, como o das crianças, ela consegue propor atividades que engajam o imaginário infantil e a liberdade de se movimentar de forma diferente no espaço escolar: tocar o amigo de uma outra maneira e explorar o ambiente cotidiano através das diversas possibilidades em que se apresenta, como escalar o móvel em que ficam guardados os colchões e caminhar descalço na terra.

A alegria de silenciar para que o próprio macaco se aproxime, ao invés de ter que correr até ele, como ocorrido na atividade extra no Parque Lage, o aprender a ouvir com o coração a voz do silêncio, abre espaço para o contato com o novo, com o Vazio Fértil que acalenta a ansiedade das televisões e propagandas a que são bombardeados, abrindo espaço para a criatividade: 'criar atividade'.

Tendo em vista que o ser humano é um ser de afetos, que ao mesmo tempo em que afeta é afetado pelo ambiente a sua volta, o projeto corpoECOlogia tem desenvolvido ações que contribuem para o fomento de uma prática cidadã através da descoberta de si, do outro e do ambiente a nossa volta, que nos compõe. A ecologia vem embasar a interdependência das partes, o comprometimento com o ambiente que compomos; o corpo é desperto, tornando-se a ferramenta necessária para o engajamento no processo de estar ativamente vivo.

A partir dessas reflexões, penso que a Ecologia pode ser explorada de diversas formas com os alunos, além da apresentação do fator ambiental. Pensar o homem no meio-ambiente é pensar o ambiente inteiro. Destaco, neste sentido, a importância de desenvolver atividades que recordem e valorizem o círculo, o movimento cíclico da vida, a interdependência das relações entre os próprios seres humanos. Fazer analogias com a estrutura da própria escola e a importância da existência de cada um que compõe as relações em sala de aula parece-me importante. Valorizar a qualidade e a singularidade de cada aluno, explorar suas características na composição das apresentações de fim de ano, estar atento às contribuições sutis de cada um que constitui este Todo.

A promoção de espaços de diálogo me parecem igualmente importante, espaços em que a fala e a imaginação alimentam o processo criativo de despertar o corpo. Destaco aqui a importância do processo, mais do que o fim – aquilo que se faz perceber no concreto. É importante considerarmos aquilo que move afetos, memórias, pensamentos e sensações que não são externalizados, mas constituem o processo do 'dar-se-conta' do aluno. Como educadores, nosso papel é também contribuir no fluxo de devir do ser humano, no sentido existencial, em que criar um espaço favorável para que o próprio ser se revele em seu movimento natural é fundamental.

Por fim, registro aqui minha alegria em participar deste movimento vivo, que supera todas estas reflexões no momento em que se faz existir. A cada dia um novo aprendizado, um novo olhar e uma nova busca de renovação para melhor contribuir. É no verdadeiro encontro dos corpos, dos olhares e dos desejos por um mundo melhor que a ecologia se faz. Para tanto, precisamos estar bem acordados e despertos, para que nosso corpo se faça presente. Assim, poderemos sentir o pulsar da teia invisível que nos une, nos tornarmos humanos e naturalmente nos tornarmos natureza... nos tornarmos Corpo & Ecologia.



...é carioca e morou no Rio de Janeiro até seus 18 anos.  Formou-se em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba em Abril de 2009, onde morou nos últimos 5 anos.  Lá, foi bolsista do CNPQ de dois projetos de pesquisa em Psicologia Social, em que estudou os Direitos Humanos e realizou atividades com o corpo docente de uma escola de ensino fundamental e atividades de reflexão ecológica com as crianças. No último ano em sua universidade, atuou juntamente ao Grupo de Pesquisa Indígena. Hoje, com 24 anos, prepara-se para a pós-graduação em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social na UFRJ e atua na formação de Pontos de Cultura junto a comunidades indígenas no Norte e Nordeste do Brasil.
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2 comentários:

  1. UM DIA NÃO TERI MAIS MEDO E ME ENCONTRAREI ENTRE OS QUE ME ENCONTRO. eNFIM ME TORNAREI ALUNA DAQUELES QUE ME QUEREM PROFESSORA E SEREMOS MAIS DO QUE MIL SEREM UM.ADRIELE

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  2. Quando Deborah fala do ritmo das coisas, o ritmo de suas palavras ecoa em mim, pois sei quanto a sensação de ritmo guia minhas ações: escrevo pensando e sentindo o ritmo, cozinho mudando de ritmo, pratico yoga para testar novos ritmos, trabalho notando como a tensão muda meu ritmo interno. Ritmo é vida. Nosso coração é ritmo. Se a música dele pára, a dança da vida fica silenciosa e triste. Se aprendemos sua música, a vida vira dança e todos os ritmos são possíveis e podemos bailar pela paz.

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