Este é o blog do Adote um Professor, o programa-raiz da União das Árvores (123s), ONG fundada no Rio de Janeiro em 2006. Aqui publicamos relatórios, projetos e sementes para uma Escola Ecológica. Conheça a nossa missão.


2009-02-16

Adotar é tornar-se responsável...

(...) reli "O Pequeno Príncipe"
Dizem que hoje dia 14 de fevereiro de 2009 os planetas se alinham em Aquário.
Dizem que este alinhamento é um portal.
Portal da era de Aquário.
Portal para um tempo mais amoroso.
Estou feliz, nesta hora, de reler palavras sobre o amor.
E reler palavras que me nutrem me faz pensar em uma outra teoria, a Teoria da Reverberação.
Teoria esta em que o verbo é posto em ação novamente.
Reverberar a palavra.
Imagino um gongo reverberando um som pelo espaço afora.
Dizem que somos feitos de verbo.
Somos a própria reverberação.
Então reverberando a palavra que me nutriu nas últimas horas, prossigo e transcrevo o trecho central para tentar dar um sentido de reverberação para a palavra adotar.
Aqui vai:



Capítulo XXI do livro "O Pequeno Príncipe" de Antoine de Saint-Exupéry, editora Agir, 45ª edição.


E foi então que apareceu a raposa:

- Bom dia, disse a raposa.


- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho que se voltou, mas não viu nada.


- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...


- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...


- Sou uma raposa, disse a raposa.


- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...


- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.


- Ah! desculpa, disse o principezinho.

Após uma reflexão, acrescentou:

- Que quer dizer "cativar"?


- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que eles fazem. Tu procuras galinhas?


- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?


- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."


- Criar laços?


- Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...


- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...


- É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra...


- Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.


A raposa pareceu intrigada:

- Num outro planeta?


- Sim.


- Há caçadores nesse planeta?


- Não.


- Que bom! E galinhas?


- Também não.


- Nada é perfeito, suspirou a raposa.

Mas a raposa voltou à sua idéia.

- Minha vida é monótona. Eu caço galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de outro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...


A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:

- Por favor... cativa-me! disse ela.


- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.


- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, o homem não tem mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!


- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.


- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...


No dia seguinte o principezinho voltou.

- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.


- Que é um rito? perguntou o principezinho.


- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias, uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem ume rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é um dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!


Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:

- Ah! eu vou chorar.


- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não te queria fazer mal, mas tu quiseste que eu te cativasse...


- Quis, disse a raposa.


- Mas tu vai chorar! disse o principezinho.


- Vou, disse a raposa.


- Então, não sais lucrando nada!


- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.

Depois ela acrescentou:

- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.


Foi o principezinho rever as rosas:

- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela á agora única no mundo.


E as rosas estavam desapontadas.

- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi ela que eu reguei. Foi a ela que abriguei com o para-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.


E voltou, então, à raposa:

- Adeus, disse ele;

- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.

- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.


- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.

- Foi o tempo que perdi com minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.


- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...

- Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.




Aqui estão palavras que reverberam em meu coração.

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Rita Brant

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